O “Tá na Rede” publica, com explusividade, as entrevistas que saíram na edição de julho do Primeira Mão, jornal laboratório do curso de Comunicação Social da Ufes. Conversamos com Rodrigo Ronchi, do portal Folha Vitória, Arnaldo Ribeiro, editor da revista Placar e comentarista do canal ESPN Brasil, e Mauro Cezar Pereira, também da ESPN. Confiram:
“Pobre futebol Capixaba”: tão longe do céu e tão perto do Rio/São Paulo.
O Primeira Mão também correu atrás da opinião de especialistas a respeito do futebol capixaba.
Num primeiro momento, nada de surpresas. Foi confirmado o que todo mundo já sabe: o futebol capixaba virou anônimo no cenário nacional. Num segundo momento… Não restam mais dúvidas. O anônimo realmente é um indigente, principalmente para os jovens.
Primeira Mão: Quais as principais lembranças que você guarda do passado do futebol capixaba e dos jogadores que saíram daqui?
Rodrigo Ronchi: Posso falar do nosso futebol a partir da década de 90. Na realidade, quando tivemos equipes locais com boas campanhas em competições nacionais, como foi o caso da Desportiva em 92, 94 e 98. O antigo Linhares na Copa do Brasil de 94, e o Serra na Serie C de 99. Tivemos bons valores nessas equipes que se valorizaram e saíram para outros centros como Mauro Soares, saído da Desportiva para o futebol português, Hiran, goleiro do Linhares, que jogou na Ponte Preta, Guarani, Inter/RS, Joélson, ex-Serra que foi para o Santa Cruz.
Arnaldo Ribeiro: São três: Dé, do Rio Branco, Botelho, jogador da Desportiva Ferroviária que Bola de Prata da Placar, e o Geovani, um dos mais habilidosos que já vi.
Mauro Cezar Pereira: Lembro dos tempos em que a Desportiva Ferroviária disputava a primeira divisão. Nessa época era comum que times de outros estados, inclusive clubes grandes, jogasse no Espírito Santo. Na época, se não estou enganado, a Vale do Rio Doce dava suporte para a Desportiva. Geovani e Sávio são os atletas capixabas de que mais recordo no momento.
Primeira Mão: A que você atribui o fato de o futebol capixaba ser tão pouco representativo nacionalmente apesar do Estado ficar tão próximo dos grandes centros?
Rodrigo Ronchi: Falta-nos força política representativa no cenário do futebol nacional, uma melhor estrutura dos clubes para que os jovens atletas possam permanecer aqui no Estado, pois hoje se transferem cedo para outros centros, e um maior investimento por parte da iniciativa privada, de modo a criar receita a ser investida no futebol.
Arnaldo Ribeiro: Talvez seja esse mesmo o motivo. Pela proximidade do Rio, o torcedor capixaba muitas vezes tem o Flamengo ou outro time de lá como time do coração.
Mauro Cezar Pereira: Falta de investimentos e preferência de boa parte dos torcedores por times do Rio.
Primeira Mão: Como você avalia o domínio avassalador dos clubes cariocas no ES, que faz com que torcedores mais jovens mal conheçam os tradicionais clubes do estado?
Rodrigo Ronchi: É algo intrigante, não diria apenas os jovens, por que muitas pessoas, inclusive na terceira idade, também torcem para times de outros centros, principalmente do Rio. A situação é similar em outros estados, inclusive que possuem clubes na primeira divisão, como é o caso de Santa Catarina, onde Corinthians, Grêmio, Flamengo e Vasco têm torcida representativa.
No Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Maranhão e interior da Bahia, também existe forte influência do futebol carioca, isso dito por colegas de crônica nesses locais. Com isso pretendo embasar minha resposta para afirmar o seguinte:
Não são apenas os jovens que torcem para times de fora e isso ocorre em outros centros, com futebol mais forte que o nosso. Portanto, precisamos não combater isso de imediato, mas fortalecer o capixaba para que apóie o clube local, mesmo que continue acompanhando clubes de fora, pois nesse primeiro momento é preciso somar, não adianta colocar em rota de escolha, ou um clube daqui ou de fora, afinal torcedor quer disputar e ganhar títulos, algo que ainda estamos longe nacionalmente.
Arnaldo Ribeiro: Preocupante. Faz com que não se criem raízes. É um dos Estaduais mais esvaziados do momento. O que fazer? Jogar o Estadual do Rio. Estou convencido disso.
Mauro Cezar Pereira: Acontece o mesmo no Sul e Minas e em Brasília, além da maior parte do norte/nordeste. Claro que é ruim para o desenvolvimento do futebol local, de fato, mas não vejo saída.
Primeira Mão: Aqui o amadorismo dos dirigentes é maior que no restante do Brasil?
Rodrigo Ronchi: Afirmo categoricamente que não. Conheço dirigentes do Estado e do Brasil, e sinceramente não vejo diferenças pontuais. Claro que existem os bons e maus gestores, mas como em qualquer área, seja nos clubes esportivos, na imprensa, etc… Os dirigentes capixabas trabalham dentro dos limites a eles impostos, tais como capacidade financeira para investimento, algo que acontece também no país, de modo que o amadorismo, em muitos casos decorre muito pela falta de separação entre razão e emoção.
Arnaldo Ribeiro: Acho que é proporcional. Não vejo grande diferença.
Mauro Cezar Pereira: Não acompanho de perto, melhor não comentar.
Primeira Mão: A decadência também atinge os demais esportes no estado. Fora alguns poucos atletas, que vencem muito mais pelos seus méritos individuais, os demais esportes olímpicos se encontram no ostracismo. Seria o maior problema a falta de uma cultura esportiva, a incompetência dos dirigentes ou falta de apoio da classe empresarial?
Rodrigo Ronchi: Na sua pergunta você já apontou algumas respostas para a melhora do problema, como mais competência de dirigentes, apoio empresarial e melhor cultura esportiva – que encaro como melhores políticas públicas. Acontece que o quadro mencionado de méritos individuais não é exclusivo do nosso estado, é uma triste realidade nacional, pois nossos esportistas vencem individualmente. A realidade é brasileira, e nisso o Estado é uma cópia fiel da falta de política pública indecente para o desporto.
Acredito que as formas de iniciação e incentivo às práticas esportivas no Brasil nasceram equivocadamente, e ainda continuam, ou seja, a escola deveria ser o grande celeiro para o começo da formação do atleta, e não o clube. As universidades são o meio, a transição do amador para o profissionalismo deste atleta. E ai sim, no final da cadeia, surge o clube para a profissionalização contratual e seguimento da carreira.
Arnaldo Ribeiro: Só vivendo mais o dia-a-dia para responder. Difícil. Mas cultura esportiva falta em qualquer estado do país.
Mauro Cezar Pereira: Tudo isso reflete a inexistência de agremiações fortes e, conseqüentemente, não acontece o esperado apoio. Dificilmente uma empresa investe em clubes/atletas que não têm visibilidade na mídia.
Primeira Mão: Apesar do estado possuir um publico apaixonado por futebol, que sempre comparece quando há algum evento importante, o esporte aqui não consegue decolar. Seria o caso da classe esportiva se unir mais e tomar mais iniciativas para fazer o que os políticos e dirigentes não fazem?
Rodrigo Ronchi: A classe esportiva é unida dentro das possibilidades e conveniência de cada dirigentes. Infelizmente não acredito em esporte difundido, forte e revelando atletas freqüentemente sem a participação escolar. A união maior deveria sim para um maior fomento do esporte no colegial e faculdades. Infelizmente hoje acontece o inverso, inclusive com a discriminação das aulas de educação física. Sem formar ídolos, não se cria atração. Sem disputar títulos, não se cativa emoção. Os eventos importantes lotam por que? Por que existe algo além do esporte puro e simples a ser jogado. Existe a importância do evento; Vale algo, existe disputa, algo acontecerá ao final, e comparecendo o torcedor fará parte do evento que será histórico, pela relevância, independente do resultado.
Arnaldo Ribeiro: Talvez. Mas me parece um movimento um tanto quanto artificial. Não sei se traria resultado prático esse tipo de iniciativa.
Mauro Cezar Pereira: O mais complicado é que o público do futebol é apaixonado pelos times, e os do ES não têm popularidade.